quarta-feira, 19 de abril de 2017

UBER VERSUS TAXISTAS: OS INTERESSES (E MEDOS) DOS POLÍTICOS


Os deputados impuseram barreiras aos aplicativos de transporte de olho no voto dos taxistas. Mas a decisão, ao que tudo indica, não irá muito longe

Reza uma antiga lenda dos corredores do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas que o parlamentar que ousar contrariar os interesses de taxistas – categoria representada das capitais aos rincões do país – não se sustenta no cargo após uma eleição. Verdade ou não, fato é que o dito ainda assombra os políticos, conforme ficou bem claro durante a análise do projeto que regulamenta os aplicativos digitais de transporte, como Uber, 99 e Cabify.
A tramitação da matéria, criada em junho do ano passado, foi tão rápida quanto a formação de carreatas organizadas por taxistas na porta do Congresso. A categoria, unida e volumosa, via no texto a esperança de impor um entrave ao avanço explosivo de multinacionais em um setor historicamente dominado por ela.
O projeto inicial era a menina dos olhos dos taxistas. Desenhado pelo deputado Carlos Zarattini (PT-SP), secretário de Transportes de São Paulo durante a gestão de Marta Suplicy, o texto exigia que somente poderiam transportar passageiros individuais com fins remuneratórios aqueles que fossem fiscalizados e disciplinados pelo poder público, portassem um taxímetro físico e carregassem a tradicional placa luminosa com a palavra “táxi”. Sequer disfarçava o objetivo de enterrar a concorrência.
Sem seguir o rito tradicional dos projetos que passam pela Câmara dos Deputados, o texto aterrissou direto no plenário no fim do ano passado. Quase foi votado, mas prevaleceu a promessa que tentava equilibrar os interesses envolvidos: a proposta pegaria um atalho em uma comissão especial, onde todas as partes seriam ouvidas, antes de ir finalmente a voto. O rito acabou não sendo seguido. O projeto foi incluído na pauta do plenário na semana passada, às pressas.
O relator foi escolhido e anunciado momentos antes, após outros dois congressistas se recusarem a assumir a missão. Havia resistência em entrar em rota de colisão com algum dos lados – os taxistas, acompanhados da fama eleitoral, ou as novas plataformas, bem avaliadas pela opinião pública?
Nos bastidores, alardeou-se que as rodadas de negociação comandadas na Presidência da Câmara haviam resultado em um acordo entre representantes dos motoristas tradicionais e os dos que aderiram às novas tecnologias: o sistema de transporte por aplicativo ficaria autorizado, cabendo a cada município delimitar regras de funcionamento, como requisitos de acesso e o pagamento de tributos.
Se houve acordo, ele durou pouco. Na hora de votar, cada parlamentar mirou o próprio futuro político. Ligados aos sindicalistas, partidos de esquerda seguiram o apelo dos seus velhos cabos eleitorais, em número cada vez mais reduzido. À frente do projeto, o PT tenta se reconectar às categorias que o sustentaram em suas origens, mas que já não se sentiam mais representadas pelo partido. PSOL e PCdoB seguiram o mesmo caminho.
Pelas mesmas razões, outros congressistas voltaram-se às suas bases, a maioria delas localizada no interior, onde os serviços oferecidos pelos aplicativos ainda não chegaram. Há estados onde não há nem previsão para a chegada do Uber, por exemplo. Quase todos os parlamentares de Rondônia, por exemplo, optaram por dificultar um sistema que nem mesmo chegou à região.
Houve ainda os congressistas que, para não comprar briga com nenhum dos lados, nem apareceram para votar. Nada menos que 100 deputados fugiram do embate e não compareceram à sessão. Sabiam que a votação, conforme fora previamente acordado, aconteceria de forma nominal, de maneira que seus nomes e suas posições seriam amplamente divulgadas.
Como consequência da necessária regulamentação dos serviços como o Uber, o texto final resultou em um duro revés para os novos modelos digitais. Apesar da alta aceitação dessas ferramentas nas grandes capitais, a maioria dos deputados decidiu que, para circular, os veículos terão de incorporar ares de táxi, com placa diferenciada e concessão pública.
O resultado da votação foi festejado. Taxistas que lotavam as galerias do plenário e circulavam tranquilamente entre os parlamentares entoavam gritos como “Eu sou taxista, com muito orgulho, com muito amor” ao mesmo tempo em que abraçavam as excelências que os apoiaram – uma reverência cada vez mais rara no Parlamento, assolado por denúncias de corrupção.
Para o especialista em marketing político Carlos Manhanelli, a decisão pró-taxistas era esperada. “Os deputados trabalham por região, e não no estado todo. Agora ele vai virar para o taxista e falar: ‘Está vendo? Eu votei a seu favor. Agora é hora de trabalhar para mim’”, afirmou. “Quem forma opinião mesmo é o vendedor de quitanda, é quem trabalha nas farmácias, é o taxista ou é o cabeleireiro. Eles têm contato direto com a população e uma credibilidade que pode influenciar no voto.” A mesma condição, diz Manhanelli, não pode ser conferida aos motoristas de Uber e dos demais aplicativos, já que eles não se organizam em sindicatos nem têm uma liderança popular consolidada.
“As regiões nas quais não há essa inovação tecnológica tiveram um lobby ainda mais forte dos taxistas. A esquerda, de forma geral, perdeu a opinião pública e dedica-se a trabalhar para nichos, e o Congresso, acuado, começa a votar na defensiva. Os deputados estão tentando garantir a sua reeleição. Todo mundo tem medo de enfrentar corporação aqui”, afirmou o deputado Daniel Coelho (PSDB-PE), o relator escolhido de última hora.
Após a esperada aprovação da matéria, deputados favoráveis aos taxistas – como Cabo Daciolo (PSOL-RJ), Laudívio Carvalho (SD-MG) e Carlos Zarattini (PT-SP) – desfrutam o estrelato nas páginas virtuais dos principais sindicatos do país. Dão entrevistas, são congratulados e também parabenizam a categoria pela “vitória”.
A festa dos taxistas, porém, pode não durar muito. Tudo indica que o texto aprovado pela Câmara não será mantido pelo Senado, por onde terá de passar antes de virar lei. O Palácio do Planalto, que tem poder de veto sobre o tema, também já sinalizou que não tem simpatia pelo modelo aprovado pelos deputados, e que gostaria de deixar a decisão de permitir ou não os serviços dos aplicativos a cargo de cada município. Enquanto isso, tudo continua como está – não há prazo nem para os senadores nem para o Planalto decidirem sobre a questão.
 
FONTE: http://veja.abril.com.br/politica/uber-versus-taxistas-os-interesses-e-medos-dos-politicos/
 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

MARKETING POLÍTICO - No primeiro mês de mandato, João Doria tenta desviar atenção de promessas.

Comparado a Jânio, prefeito de São Paulo investe em ações baratas e de resultado rápido
O GLOBO
POR 
SÃO PAULO - Eleito sob o mote de "João Trabalhador", criado para atenuar a imagem de empresário milionário e elitista, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), dedicou seu primeiro mês de mandato a cumprir uma agenda popular e performática. Em sua "estreia" à frente da administração, se vestiu de gari. Desde então, em compromissos diários, inclusive nos fins de semana, já foi pedreiro, ciclista e até cadeirante, para testar a acessibilidade das calçadas. - Dinheiro, a gente não tem, mas a gente tem criatividade. E com criatividade a gente consegue fazer obras - disse ele nesta terça-feira, emendando: - Vamos continuar no mesmo ritmo. Vamos continuar nesse ritmo pelos quatro anos. Tenho trabalhado 16, 17 horas por dia, inclusive nos domingos. Eu e muitos secretários estamos no mesmo ritmo. Com dinheiro curto, Doria apostou em ações de visibilidade que dão resultados imediatos e exigem poucos investimentos, como o programa de zeladoria urbana batizado de "Cidade linda". Principal foco de sua gestão até agora, as ações tiveram ampla repercussão, mas a busca por um noticiário positivo não o livrou de polêmicas. Na mais recente delas, declarou verdadeira guerra aos pichadores na cidade: mais de 40 pessoas já foram detidas. Ele também decidiu apagar os murais da Avenida Vinte e Três de Maio desenhados há dois anos, o que incomodou artistas e urbanistas. Autorizadas pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT) em 2015, as pinturas eram chamadas de "maior mural de grafite a céu aberto da América Latina". Após a repercussão negativa, o prefeito anunciou a criação de uma espécie de museu a céu aberto para abrigar grafites em diferentes pontos da cidade. Uma de suas promessas de campanha, o aumento da velocidade nas marginais Pinheiros e Tietê virou alvo de disputa judicial. A pedido de uma associação de ciclistas, a Justiça barrou a mudança, sob o argumento de que traria riscos ao trânsito. Doria recorreu da decisão e conseguiu revertê-la. Para não aumentar a tarifa dos ônibus, outro compromisso eleitoral, o prefeito e o governador Geraldo Alckmin (PSDB), seu padrinho político, elevaram o valor da integração entre ônibus e transporte sobre trilhos para acima da inflação. O caso também foi parar na Justiça, que barrou a medida em sucessivas decisões. Em sua estreia à frente da administração de São Paulo, João Doria varreu a Av. Paulista vestido de gari. Agenda popular e performática dá o tom do início de sua gestão. Uma das apostas de Doria é o programa de zeladoria urbana batizado de “Cidade linda” Ao lado do governador Geraldo Alckmin, Doria toma café em um bar próximo à prefeitura, após a assinatura do termo de repasse do Fundo Estadual de Assistência Social (FEAS). O prefeito apostou em ações de visibilidade que dão resultados imediatos e exigem poucos investimentos. Doria se tornou alvo de protestos, após apagar grafites e pichações na Av. 23 de Maio, o que incomodou artistas e urbanistas. O governador Geraldo Alckmin, João Doria e Vice-Prefeito Bruno Covas participam da missa em celebração ao aniversário da cidade de São Paulo na Catedral da Sé. Ao lado do presidente Michel Temer, Doria vai ao ato Nacional em Memória às Vitimas do Holocausto. Doria ainda retirou um veto à apreensão de pertences de moradores de rua pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), decreto criado durante a gestão Haddad. À imprensa, disse que a determinação servia apenas para que a GCM pudesse acompanhar os trabalhos das secretarias de Direitos Humanos e Assistência Social, e que a retirada de objetos não iria acontecer. Formado em comunicação, Doria demonstrou que terá um cuidado especial com o marketing na sua gestão, seja para dar nomes curiosos aos programas - como o "Corujão da saúde" - ou na dedicação em alimentar as redes sociais. Em tempos de pouca verba para investir em publicidade, as plataformas digitais têm sido os principais canais de divulgação do prefeito. Na internet, ele conta como é comandar a maior cidade do país, e sua exposição tem rendido comentários positivos e sugestões. Especialista em marketing político, Carlos Manhanelli comparou a postura de Doria com a de Jânio Quadros, que também comandou a capital paulista na década de 1980: - Doria é a cópia fiel do Jânio, que também se fantasiava e foi um grande ícone da política brasileira. Como comunicador, ele sabe como chamar a atenção dos jornalistas e se apresentar. Durante a campanha, criou a imagem do herói, do grande empresário que viria para resolver os problemas, e essas ações (se vestir de gari, varrer a rua) humanizam o político. Para Carlos Melo, cientista político do Insper, Doria busca atrair a atenção para si e desviar o foco de promessas que não podem ser cumpridas ou que vão demorar a sair do papel: - Tem uma parte do eleitorado que é sensível ao espalhafato, ao prefeito vestido de pedreiro. Diante das primeiras dificuldades, ele vai criando fatos, tentando chamar a atenção para outras coisas. Isso é ruim do ponto de vista da maturidade política, institucional. O prefeito tem que administrar não limpar a praça. No primeiro mês de mandato, João Doria tenta desviar atenção de promessas.
 

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

MARKETING POLÍTICO - COMUNICAÇÃO: A ESTRATÉGIA DE DÓRIA QUE DEU CERTO


Quem não se comunica, se trumbica!" Essas palavras do Chacrinha foram levadas muito a sério pelo prefeito de São Paulo, João Doria, e, segundo especialistas, têm mostrado resultado. É possível ver que a propaganda do “João Trabalhador”, como quer ser chamado, tem dado certo pela avaliação de eleitores na página pessoal do prefeito no Facebook.
Em tempos de pouco dinheiro para publicidade, as redes sociais do prefeito têm sido o principal canal de interação entre ele e o eleitorado. A média de publicações na página dele são de 25 por semana e costumam contar o dia no comando da maior da cidade do País. A exposição tem rendido a ele comentários positivos sobre o desempenho e sugestões sobre o que fazer.
Logo no primeiro dia de prefeito, Doria deixou claro que a sua estratégia é estar presente. No início da manhã do dia 2, o prefeito apareceu vestido de gari para limpar a rua em um mutirão de limpeza. No mesmo dia, ele prometeu que estaria nas ruas uma vez por semana nos próximos quatro anos.
A foto dele com o tradicional traje verde de gari já virou um símbolo nestes 17 dias de gestão. Com foco na comunicação, o prefeito também ganhou a mídia espontânea.
Balanço divulgado pela prefeitura mostra que, nas duas primeiras semanas, Doria fez 12 ações e programas. Todos amplamente divulgados nas redes sociais do prefeito.
O principal é o “Corujão da Saúde”, que já iniciou os atendimentos e realiza exames e reavaliação de pacientes. Foram credenciados 20 hospitais particulares para atender a população, entre eles os hospitais do Coração (HCor), Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz.
Entre os outros pontos positivos ressaltados estão o contato da Secretaria Municipal de Saúde com pacientes para acelerar a fila da espera por exames, a ação para eliminar pernilongos na região do Rio Pinheiros e o programa Cidade Linda.
Comunicação
Ao site Exame.com, o cientista político e especialista em marketing eleitoral Carlos Manhanelli resumiu: “Doria é um homem de mídia e sabe como chamar os jornalistas e se apresentar”. O especialista afirmou ainda que em comunicação política não adianta fazer um mandato muito bonito e não falar o que está fazendo.
“O Haddad achou que fazendo uma cidade mais humana, com ciclovias e ruas abertas, e as pessoas iam reconhecer. Se nem ele divulgou e deu o devido valor, por que o cidadão daria?”, diz o cientista político.
O cientista político e professor no curso de Administração Pública e Governo na FGV/SP, Francisco Fonseca também atestou em 2014 que ex-prefeito Fernando Haddad não soube fazer um bom trabalho de comunicação em um artigo chamado Os grandes e pouco divulgados avanços do governo Haddad”. Depois de listar uma série de melhorias que o petista promoveu na capital, ele destacou a lacuna:
“Falta, contudo, ao Governo Haddad, melhorar significativamente sua comunicação com a população – por meios diversos, sobretudo os populares –, saindo do cerco elitista dos privilegiados que querem a priorização do automóvel individual, o baixo valor de seus IPTUs nos bairros de classe média alta e a cidade voltada aos negócios, ao capital e ao consumo. A batalha da comunicação é uma batalha política, tal como as analisadas aqui”.
Crítica
A estratégia de Doria, entretanto, esbarra em críticas. Em artigo publicado no HuffPost Brasil, a vereadora Sâmia Bonfim (PSol) afirma que o marketing do prefeito não se sustenta. "O povo tem anseios e necessidades urgentes, que não serão resolvidas enquanto a prioridade da prefeitura for posar para fotos. No malabarismo para aparentar ser trabalhador, Doria distancia de sua agenda qualquer compromisso real com o interesse social", argumenta.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

DORIA, O SHOWMAN




Essa matéria foi publicada no app EXAME Hoje, da revista EXAME, e segue abaixo na íntegra.
O app está disponível na Google Play e App Store.

7/01/2017 07:01 Raphael Martins


Nem havia amanhecido na segunda-feira 2 quando o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), chegou à Avenida Nove de Julho, no centro da cidade, para ajudar em um mutirão de limpeza e varrer o meio fio. Não se tratava de filantropia. O tucano anunciou sua ida ao local dias antes, convocando jornalistas a pularem da cama antes das 6 horas da manhã para o primeiro ato de seu governo. Surgiu para a multidão de fotógrafos devidamente trajado com o uniforme de gari da capital e sapatênis da grife Osklen — cujo preço (500 reais) é cerca de metade do salário mensal dos funcionários. Doria apareceu ao lado de secretários, varreu a calçada por dez segundos, foi à padaria tomar um pingado e cumprimentar eleitores. Finalizada a ação, partiu para a prefeitura com sorriso no rosto: a inauguração do programa Cidade Linda, que montará semanalmente mutirões de zeladoria para os grandes eixos da cidade, havia sido um sucesso.

O prefeito autointitulado “não político” mostrou, na primeira semana no cargo, o que deve ser uma tônica de seu governo: comunicação e marketing afiados. Doria tem longa experiência em comunicação à frente do Grupo Doria, que, além de uma editora de revistas e consultoria de marketing, faz eventos com grandes empresários. Nestes eventos, ele é conhecido por cuidar de detalhes, da vestimenta dos convidados ao lugar em que cada convidado vai sentar. “Tenho duas calças brancas, e só uso para cumprir o figurino dos eventos dele”, diz um conselheiro de grandes empresas. Doria acumula também experiência como jornalista, quando apresentava o programa Show Business, na TV, Bandeirantes. Isso faz com que, nas aparições na TV, esteja sempre no melhor ângulo, olhando diretamente para a câmera.

O resultado da primeira ação no cargo? As imagens e fotos da varrição ficaram ótimas, como se vê no topo da página. Segundo Doria essa é “uma demonstração de igualdade, humilde e trabalho”, mas há quem discorde. ““Dá para ver que a cidade pode se tornar palco para o exibicionismo do tucano, que vendeu inovação durante a campanha, mas não deu um passo longe da velha política”, afirmou o vereador de oposição Toninho Vespoli (PSOL), na segunda.

Doria promete que essa não será a única vez que vai às ruas. Um calendário de ações do Cidade Linda foi montado, passando por eixos como as avenidas Paulista, 23 de Maio e Tiradentes. “Todas as semanas em quatro anos [estarei lá]. E olha, acordem cedo, hein?”, disse o prefeito.

A lista de eventos e ações continuou. Mais tarde na segunda, anunciou suas primeiras medidas de corte de gastos numa concorrida coletiva. Determinou redução de 15% dos valores de contratos de empresas com a prefeitura, leilão de 1.300 veículos oficiais para gerar caixa, redução de 30% dos cargos comissionados e a alocação de um “gestor de economia” em cada uma das secretarias da prefeitura, para estruturar cortes nas contas de água, luz, telefone e outros.

Parece uma agenda negativa, mas Doria tratou de inverter o jogo. “A crise pela qual passa o país gerou um apelo de marketing sobre a produtividade e a eficiência da gestão estatal”, afirma Fábio Klein, especialista em contas públicas da Tendências Consultoria. “Ganhou força o discurso de gerir com mais eficácia o setor público”. Na quarta, houve coletiva sobre a gestão do Theatro Municipal, marcado no ano passado por um esquema de corrupção na administração interna, e o anúncio de multa para os secretários atrasados para reuniões. Na quinta, o prefeito inaugurou um novo sistema de iluminação na Ponte Estaiada, cartão-postal da cidade, junto com uma grande limpeza das pichações.

O estilo frenético gerou comparações com um velho antecessor: Jânio Quadros, que governou a cidade em dois períodos, de 1953 a 1955 e 1986 a 1989. Sua caracterização como gari em muito se assemelha às performances do ex-prefeito, conhecido por sacar um bloco de multas e aplicar autuações de trânsito pessoalmente. A própria vassoura virou símbolo de Jânio, que pretendia faxinar os corruptos. “Doria é um homem de mídia e sabe como chamar os jornalistas e se apresentar”, explica Carlos Manhanelli, cientista político especialista em marketing eleitoral.

Antecessor de Doria, Fernando Haddad (PT) nunca foi próximo da mídia. As três conquistas de seu mandato segundo sua própria avaliação, como a renegociação da dívida do município, a obtenção de grau de investimento e a criação da Controladoria do Município foram ressaltadas aquém do que deveriam. “Em comunicação política não adianta fazer um mandato muito bonito e não falar o que está fazendo. O Haddad achou que fazendo uma cidade mais humana, com ciclovias e ruas abertas, e as pessoas iam reconhecer. Se nem ele divulgou e deu o devido valor, porque o cidadão daria?”, diz Manhanelli.

Na campanha eleitoral, Haddad atribuiu as más avaliações ao fato de cortar gastos com publicidade. De fato, o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) entregou a cidade em 2012 gastando 162,8 milhões de reais nas verbas de publicidade. Haddad cortou o investimento para 121,5 milhões em 2013, reduzindo aos poucos até 70,5 milhões de reais, em 2015. Mas o segredo de Doria está na mídia espontânea. Nos primeiros dias de mandato, quando qualquer passo é monitorado, o prefeito se aproveita do holofote para mostrar que está se mexendo, mesmo que os efeitos práticos na agenda da cidade não sejam os mais urgentes.

Ganhar espaço com mídia espontânea é fenômeno também em outros países. Donald Trump aposta em seu Twitter, onde disparou —e ainda dispara— ataques a adversários e dá sua opinião sobre episódios de política externa. Cada tweet, uma machete. O ex-prefeito de Londres Boris Johnson é outro exemplo. A seu estilo falastrão e de humor questionável nas declarações, foi o líder da campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. Com a popularidade que ganhou, chegou a ser cogitado para primeiro-ministro. Assim como Doria, era jornalista e foi intensamente questionado se tinha capacidade de governar. Virou chanceler.

Para Doria, os perigos são dois. O mais simples é o desgaste que as medidas tomadas venham a sofrer. O exemplo mais claro é o aumento de velocidade das marginais Tietê e Pinheiros. Estudos mostraram durante o final do mandato passado que a redução determinada por Haddad reduziu além da média nacional o número de mortes no trânsito. Caso acidentes fatais voltem a acontecer, Doria será pessoalmente cobrado. O segundo é que se, com o passar do tempo, os eleitores notarem pouca ou nenhuma melhoria nos problemas estruturais da cidade, sua popularidade e apoio devem despencar.

“O eleitor escolhe o candidato e tem uma certa paciência por um tempo. Há um estoque de credibilidade, com prazo para entregar algum resultado. Essa paciência costuma durar 100 dias”, afirma Victor Trujillo, especialista em marketing político da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Ao final do período já deu para pôr a casa em ordem. Se as ações de agora vão ser eficazes, resta saber se a longo prazo vão de fato empolgar o eleitorado para estar do lado dele e motivar os servidores, criando um círculo virtuoso”.

Diz Trujillo que, por enquanto, o eleitor se satisfaz apenas em ver o prefeito tomando atitudes, mesmo que simples. “Ver algo se materializar, alguma novidade, balançar a poeira, já é bastante positivo”, diz. “Para se conectar com eleitor é muito produtivo, independentemente de ser eficaz e traduzir em algo positivo ou um tiro no pé lá na frente”. Segundo o professor, trata-se de um trailer do filme, um pequeno teaser para gerar interesse da população.

Em geral, os aliados comemoram a postura do novo prefeito. “Doria confirma um estilo diferente de relação do político com a sociedade, que o torna bem mais interessante para a mídia”, diz um tucano. A percepção geral dentro do partido é de que o mandato começou com “dinamismo pragmatismo, muita vontade de fazer as coisas”, diz outro dirigente do partido.

Mas, claro, há narizes torcidos. “Se aparece vestido de gari ou de odalisca, o que importa é o resultado da prática. Eu não faria esse show. Teria uma postura mais séria”, diz Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo e vice-presidente do PSDB. Há também relações que azedaram. Um dos grandes apoiadores de Doria foi o vereador e presidente do diretório municipal do PSDB, Mario Covas Neto. O Zuzinha, como é conhecido, buscou apoio do prefeito para ser presidente da Câmara Municipal em troca do suporte dado a ele nas prévias para a eleição de 2016. Viu o barco afundar quando Doria anunciou apoio a Milton Leite (DEM), que acabou eleito com 50 dos 55 votos. Hoje, a dupla mal se fala.

Apesar de alguns conflitos, o “não político” Doria pode usar também o poder do marketing para dominar também a Câmara e aprovar suas medidas. Os vereadores chegam no íntimo de pequenos redutos eleitorais na cidade, quase na casa do seu eleitor. Se a aprovação pública for crescendo, a Câmara tende a perceber de perto a pressão — algo que acontece menos com a Câmara dos Deputados, isolada em Brasília. “Nenhum vereador vai virar as costas para o prefeito se a comunidade que lhe dá sustentação está favorável”, diz Trujillo, da ESPM. Para Goldman, se o show vai vir seguido de um bom governo, ou se é só uma tentativa de cobrir futuras ineficiências, só o tempo vai dizer. Faltam 1.453 dias de governo Doria.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Eleitores não se recordam em quem votaram

Às vésperas das eleições deste ano, grande parte da população afirma não se lembrar em quem votou para os cargos do Legislativo em 2010. O Comércio entrevistou dez pessoas em Jaú e 50% delas declararam que não sabem mais o nome de seus candidatos para deputado federal e estadual em 2010 (leia textos).
O levantamento mostra distanciamento da população em relação ao Legislativo, esfera do poder responsável por elaborar as leis brasileiras. O excesso de candidatos e de eleitos – são 81 senadores, 513 deputados federais e 94 deputados estaduais em São Paulo – é um dos motivos apontados por especialistas como a causa do esquecimento das pessoas.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos e Assessores Eleitorais, Carlos Manhanelli, a população brasileira não sabe para que servem os cargos do Legislativo.
“Na concepção do povo brasileiro, tem importância o Executivo, pois são os governadores e o presidente que sempre estão na mídia e anunciam mudanças para a população. Seria necessário mais transparência ao trabalho do Legislativo, mostrando como ele pode interferir na vida das pessoas. Assim, seria possível construir uma memória política”, ressalta Manhanelli.
De acordo com presidente da associação, a memória política deriva da importância que a população dá ao Legislativo. Somente com aumento da credibilidade deste poder seria possível cobrar maior acompanhamento das pessoas em relação aos seus candidatos.
“Nosso sistema democrático é representativo. O Legislativo tem candidatos representando geograficamente ou socialmente toda a sociedade. Enquanto não conseguirmos mostrar que o Legislativo realmente influencia no dia a dia, as pessoas não vão dar importância nenhuma ao voto”, acrescenta.
Consciência
A falta de consciência política seria mais um dos motivos apontados por especialistas para o esquecimento sobre os candidatos. No Brasil, é comum que as pessoas votem em determinado deputado ou senador por indicação da família ou de um amigo.
“Observo que o povo nunca se esquece de seus candidatos para governador e presidente, porque votam por convicção própria. Mas falta consciência para o voto do Legislativo, pois muitas pessoas escolhem seus deputados e senadores a partir de um favor ou uma indicação de alguém”, diz o sociólogo Sinésio Baccheto, articulista do Comércio do Jahu.
Para Baccheto, se houvesse mais atenção do povo ao processo político, a população seria menos enganada pelo próprio sistema. “Se não nos lembramos em quem votamos, não vamos ter formação e informação sobre o andamento político do País”, acrescenta.

sábado, 5 de novembro de 2016

MARKETING POLITICO - AS ELEIÇÕES DE 2.016


Como foram as eleições 2016, qual recado das urnas e o que os eleitos vão enfrentar?


As eleições de 2.016 foram marcadas pela constatação de que a reforma eleitoral proposta pelos legisladores, ocasionou uma enorme decepção para os eleitores.

A diminuição do tempo nas campanhas eleitorais levou a um não aprofundamento das propostas dos candidatos para o governo, deixando os eleitores sem oportunidade de discutir e participar dos planos de governo.

A sociedade organizada não teve como colocar as suas opiniões e sugestões, nem tão pouco analisar o que estava sendo proposto.

Resultado: Muitos eleitores se abstiveram do voto, além de anularem e votarem em branco.

O maior índice que se teve conhecimento em campanhas municipais que, na verdade são as que mais diretamente influenciam na vida dos cidadãos, indicam e apontam para algumas conclusões: O eleitor esta muito descontente com a classe politica; o eleitor não conseguiu interpretar os programas de governo (os poucos que tiveram); o eleitor descobriu que uma democracia plena se faz com o direito ao voto e não a obrigação de votar, o que nos remete ao voto facultativo que, embora a nossa democracia obrigue o voto, as sanções são mínimas e possíveis de dispensar essa obrigatoriedade; o tempo e os veículos de comunicação usados nessa eleição foram insuficientes para que o eleitor e a sociedade organizada pudessem analisar e interpretar as propostas dos candidatos; por falta de tempo para que candidatos pudessem aprofundar as discussões sobre plano de governo, as campanhas eleitorais centraram na desconstrução dos candidatos desaguando em agressões e acusações na maioria das vezes infundadas, ensejando em várias interpelações judiciais; o aumento de inserções em rádio e TV oneraram as campanhas eleitorais desfazendo a fantasia de diminuir custos; a proibição de angariar recursos de pessoas jurídicas fez com que as campanhas tivessem uma comunicação pobre, levando o eleitor a não votar por desconhecer os argumentos dos candidatos que pudessem levar ao voto; o fundo partidário, que poderia ajudar nestes custos, não chega às campanhas e nos diretórios municipais (com raríssimas exceções); o uso da internet, de quem tanto se esperava, demonstrou-se insuficiente para se tornar arauto de campanhas eleitorais tendo ainda que ser estudada e testada em suas várias ferramentas comunicacionais.

Enfim temos uma demonstração incontestável que o modelo proposto pela nova legislação não serve para uma campanha eleitoral no Brasil e que é urgente rever os parâmetros que se colocam para eleger um politico, principalmente a cargos majoritários que derivam de propostas de governabilidade que devem ser discutidas com a sociedade.

Os legisladores devem olhar com mais carinho a importância da comunicação política/eleitoral.

E depois de eleitos o que esperar dos novos governantes?

Os novos prefeitos deverão ser administradores de crises, pois é o que enfrentarão a partir de 01 de Janeiro.

Prefeituras com muito pouco ou já sem nenhuma capacidade de investimentos, estão gerenciando despesas e demandas essenciais, sem expectativa em curto prazo de progredir com as necessidades da população e da cidade.

Na comunicação, os governantes devem se ater a transparência e a necessidade premente de colocar para a população as dificuldades e as soluções encontradas, de preferencia junto com a sociedade organizada.

O eleitor trocou seu voto pela melhoria de sua vida na cidade, e é isso o que ele espera receber e ser comunicado. Votei em você e você o que está fazendo para melhorar minha vida?

Comunicação para o político é como o ar que respira; se parar morre.

Carlos Manhanelli

Mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo

Presidente da ABCOP – Associação Brasileira dos Consultores Políticos.  Acompanhou esse ano 43 campanhas majoritárias no Brasil.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Em meio ao descrédito da classe política, Congresso discute o que políticos devem fazer nas Eleições 2016.


Desde o pleito de 2014, ficou acentuado o total descontentamento da população brasileira com a classe política que a representa. Diversas manifestações contra governos municipais, estaduais e, com maior ênfase, contra o Governo Federal têm efervescido os debates sobre o futuro político do país. Essa é uma questão que permeia também no pensamento dos profissionais da área política e dos próprios candidatos, que encontrarão um ambiente muito mais hostil durante o pleito deste ano. Pensando nisso, a Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP) em comemoração aos seus 25 anos de existência,  traz esse ano, como tema central de seu congresso bianual, os desafios que tanto profissionais quanto candidatos enfrentarão nas Eleições 2016.

 O Congresso Brasileiro de Estratégias Eleitorais e Marketing Político, que acontece desde 1986, entra em sua  12ª edição nos dias 29 e 30 de abril, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, trazendo em sua programação uma variada gama de assuntos voltados às eleições, desde como atuar com as novas tecnologias, o uso do rádio, as novas regras e legislação eleitoral, pesquisas, até mesmo as técnicas de argumentação que um candidato deve ter no famoso corpo a corpo.

Nomes consagrados no meio do marketing político/eleitoral, do direito eleitoral, das pesquisas de opinião e da comunicação social comporão a grade de apresentações do congresso que teve sua última edição em Brasília, no ano de 2014. O encontro das maiores inteligências políticas e eleitorais do país estarão reunidas em um único local.

                Em sua assembleia geral ordinária, a ABCOP apresentará o código de ética dos profissionais da área politica/eleitoral.

“Esta edição tem tudo para ser a maior da longa história que possui esse congresso. Conseguimos trazer grandes mestres das técnicas eleitorais, mesclando com ótimos especialistas nas novas tecnologias, que incrementam cada vez mais a rotina da comunicação política. Estou certo de que quem estiver presente sairá das palestras com novas ideias a respeito do que fazer nas próximas eleições”, destaca Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP). Informações e inscrições, acesse: www.estrategiaseleitorais2016.com.br.

Abraços,

Vinicius Ribeiro

MTB 75694/SP

(11) 3782-9900 | (11) 96627-0649

Departamento de Comunicação

Manhanelli Associados